#156 - Bodas de dobradiça
Uma crônica sobre o até que o sono nos separe
O relógio tentou me avisar, ao marcar o limite que eu deveria permanecer acordada: 23h. Não lhe dei ouvidos. Eu sabia que a rotina deveria mudar com a volta às aulas das crianças, mas o que fazer com o hábito de assistir a séries até pra lá da meia-noite, adquirido durante as férias? Um mês para criá-lo para simplesmente descartá-lo dessa maneira? Não, não. “Só mais hoje”, pensei. Fiz a conta: se dormisse à meia-noite, ainda teria seis horas de sono. Meu número mágico. Cliquei em ‘próximo episódio’.”
Ignorei, além do relógio, o meu marido e sua mania insuportável de correr às seis da manhã e, pra isso, acordar às cinco. Esqueci-me também da porta do banheiro, cujas dobradiças precisam de óleo, e que certamente seria usada pelo corredor da madrugada.
Sem essas variáveis, o plano sairia perfeito. Pra falar a verdade, ele até começou muito bem. Não ouvi o despertador e, por isso, ganhei uns cinco minutos a mais de sono, antes de despertar assustada com a porta dramática. Maldita! Rangeu alto para me acordar. Não feliz, repetiu. Duas vezes. Três vezes. No quarto berro da dobradiça, já sentia o peso do mundo nas costas e um caminhão de areia nos olhos.
— Paulo, quantas vezes mais você vai abrir essa porta?
Cobri a cabeça.
— Inferno!
A porta se fechou. Olhei o relógio: 5h40. Teria tempo para dormir mais meia hora, mas a chama que queimava no meu peito não permitia. Nem minha pulsação acelerada. Raiva. Muita raiva.
Às 5h50 ouvi a torneira. “Ele ainda está no banheiro”, pensei, quase sem ar. “Vai sair a qualquer minuto e a porta vai ranger novamente".
A porta então se abriu devagar. Com cuidado. Com medo, talvez. Quase não gemeu. Então ele sabia como fazer. Por que me torturou tanto mais cedo? Queria ser ele meu despertador? Sentia inveja do meu sono? Achou que eu pudesse esquecer que hoje é meu dia de levar as crianças para a escola?
Respirei fundo na tentativa de aplacar a vontade de matar, tão instintiva, que me corroía.
Tramei minha vingança.
Será na véspera do longão, o treino mais comprido da semana. Ele vai adormecer às 21h, como de costume e eu vou ao banheiro seis vezes entre 23h e meia-noite. Foda-se. Ele vai ver o que é bom pra tosse. Vai ver a cor do calango verde. Vai saber com quantos paus se faz uma canoa. Não perde por esperar. Serei má, muito má.
Com a vingança detalhadamente armada na minha mente, meu corpo amoleceu. Relaxei. Conseguiria finalmente dormir aquela meia hora, tão importante para o meu dia. Virei para o lado, destravei a mandíbula. Senti o peso do corpo no colchão. Fechei os olhos. E meu despertador berrou. Tremi de ódio. Decidi não esperar a véspera do longão para me vingar. Será hoje o dia D. Ou melhor, a noite D. Amanhã também. E ainda repetirei na véspera do treino principal.
Como ainda não era a hora do ataque, levantei e segui com a vida. Ontem completamos 14 anos de casados.
P.S.
No dia anterior, Paulo também me acordou. Não foi com a porta do banheiro, mas sim com um buquê de flores. Mesmo assim sofrerá com minha vingança malígna. No mercy!
Enquanto o dia D não vem, fique com essas edições anteriores:
A da semana passada:
Essa de 2 anos atrás
Nos vemos novamente em breve!
Um beijo,
Andrea Nunes | Grupo IDEA





