#155 - Torcer emprestado
Uma crônica sobre quando a festa não é nossa
E a rede atrás do goleiro brasileiro balançou mais uma vez.
Eu saí da sala. Não vi o final. Só soube do pênalti do Neymar 24 horas depois. Pudera, ninguém ali naquele rooftop brasileiro gritou. O gol saiu, mas a comemoração ficou entalada.
Mais uma Copa que escapou das nossas mãos. Quer dizer… nunca esteve nas nossas mãos, não é verdade?
Enquanto a Brahma fazia a campanha “é permitido acreditar” e a gente se iludia com a promessa de cerveja grátis, a alta direção da empresa já sabia que a seleção não chegaria longe. Afinal, imagina só o prejuízo.
Mas eu me iludi.
E a culpa não foi da convocação do Neymar, dos gols do Vini Jr., ou do excelente entrosamento do time no jogo contra a Escócia.
A culpa foi do álbum de figurinhas. Das dancinhas da internet. Da minha filha decorando cada uma das comemorações dos jogadores. Do meu filho, que nunca foi chegado em futebol, acompanhando cada placar. Do grito da torcida que dizia que em 58 foi Pelé, em 62 foi o Mané, em 70 um esquadrão, em 94 Romário, em 2002 fenômeno e que o Brasil é o único pentacampeão.
Quem me iludiu foi a Netflix com a série da Copa de 70. Foi o filme da Adidas, Backyards Legends, que me lembrou do futebol raiz, que nasce nas periferias, mesmo que o filme retrate uma periferia americana. Foram os memes. Meu Deus, os memes! Eu queria o Brasil até o fim para termos mais deles.
Fui iludida também pela torcida. Pelo Movimento Verde e Amarelo tomando o Dumbo, no Brooklin, para fazer a remada viking da Noruega em ritmo de créu. O que foi isso, Brasil? O que foi isso? Quem é que não queria estar lá, remando o créu com as cores da bandeira? Eu queria. Eu senti no coração um orgulho tão grande de sermos tão engraçados e debochados e patriotas.
“Aqui é Brasil”.
“Imagina não ser brasileiro”.
“O brasileiro precisa ser estudado pela NASA”.
“Só se vê isso no Brasil”.
Tantas e tantas frases reforçando nossa particularidade, nossa característica tão intrínseca de rir de si mesmo. De criar com pouco. De fazer chover. Tudo para, no fim do dia, terminar com “o brasileiro não tem um dia de paz".
Saí do rooftop e fomos para a Times Square. A torcida norueguesa estava lá e, por não termos a nossa própria festa, nos juntamos a eles. Cantamos em uma imitação fajuta do norueguês. Remamos. Ouvimo-nos cantar “ai se eu te pego", felizes por estarmos comemorando juntos. Uns 20 brasileiros entre uma centena de noruegueses, recebidos com carinho. Sem provocação. Sem olhares tortos. Uma só festa. Um consolo pra nós. Uma alegria genuína pra eles. Pelo menos não perdemos da Argentina, ouvi mais de uma vez.
Ali, parada em meio aos noruegueses da Times Square, vi a rede balançando de novo. Em forma de bandeira. Uma bandeira que não era nossa. Mas a gente ergueu o braço junto.
E ficamos ali, gritando um gol que não fizemos, enquanto eu perguntava: quantas vezes mais a gente vai torcer emprestado?
P.S.
Estou aqui em NY. Não pela Copa, mas pelo show do Bon Jovi. Sim, de novo. Não me julgue. Acabei de conhecer duas mulheres no café da manhã que já estiveram em 30 shows. Só nessa temporada, vão ver 3.
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Nos vemos na volta.
Um beijo,
- Andrea





