#157 - A chefe, a raquete e o eclipse
O universo mandou evitar conflitos. O sorteio tinha outros planos.
Dias de eclipse não são bons para entrar em embates ou tomar decisões drásticas, já dizia a minha professora de yoga.
Mas eu tinha um jogo do ranking de beach tennis que participo bem naquele 12 de agosto, dia de eclipse solar.
E, como se o universo quisesse testar a minha capacidade de evitar embates, o sorteio me colocou para jogar com uma garota que entrou em quadra como minha dupla e assumiu imediatamente o cargo de chefe.
“Você devia de feito isso. Você devia ter feito aquilo. Você devia estar mais pra frente. Você devia estar mais pra trás. Você não devia estar tão perto. Você não devia estar tão longe. Você não vai sacar daí, porque sacou daí e perdeu o jogo anterior. Só jogo com a bola INNI, por isso que errei. Você pode usar a bola INNI?”
— Ok, chefe. Só cumpro ordens — respondi, já sem conseguir disfarçar a irritação.
Mas a professora de yoga já havia dito naquela mesma manhã: não entre em embates. Fui aguentando. Fui emputecendo.
— Vou sacar na três, então — anunciei alto o suficiente para que até as adversárias ouvissem, depois de ela rechaçar minha sugestão de saque. Se eu não podia decidir a jogada, também não precisava guardar o segredo.
A verdade é que eu não estava mais nem aí.
E se eu não jogo com quem confia em mim, me encolho. Perco eu mesma a confiança no meu taco e começo a errar, errar e errar.
Eu ia falar “me deixa jogar, chata do caralho”, mas alguma coisa me segurou.
Talvez a minha educação. Ou a voz da professora de yoga. Talvez os anos todos sendo a última a ser escolhida na educação física. Talvez a voz do meu pai dizendo: “A Andrea não serve para esportes com bola.” Talvez eu tenha interiorizado tão profundamente essas premissas de mais de 30 anos atrás que nem mesmo ter chegado ao top 10 de um ranking com cerca de 100 pessoas, no último semestre, tenha sido suficiente para me convencer. Sim, hoje eu sou do esporte.
Culpa do Freud, que veio com esse conceito irritante chamado “inconsciente". Um espaço que armazena as lembranças, os traumas e os desejos recalcados por nós porque não condizem com quem queremos ser de verdade, mas que atuam sobre a gente sem nossa permissão. Será que se o doutor supremo da psicologia não tivesse apresentado o insconsciente ao mundo, ele não nos traria tanto sofrimento com nossos conflitos internos?
Não sei.
Eu me continha; a raquete, tremendo nas minhas mãos, não. Parei de olhar para ela porque já não conseguia esconder a raiva. “Contenha-se”, eu me dizia. “Hoje não é dia de entrar em embate.”
Mas eu queria mesmo era sacar nas costas dela. Com força. E fazer cara de tonta depois, ao me desculpar com hipocrisia.
Eu queria fingir uma enxaqueca, um pé torcido, uma caganeira, para abandonar o jogo e voltar pra casa pra lavar louça, porque até lavar toda a louça do jantar seria melhor que aguentar a chata bancando a técnica, com opiniões demais sobre onde eu deveria estar, sacar e respirar.
Mas fiquei lá. E acabamos ganhando o jogo. Na hora de ir embora, quem disse que encontrávamos as bolas INNI da flor do dia? Não encontramos. Eram bolinhas novíssimas. E jogador de beach tennis odeia perder suas bolas novas.
Alguém certamente as pegou, porque sumiram misteriosamente. Talvez fossem os duendes que protegem jogadores humilhados. Talvez os sacis do bairro do Morumbi. Talvez eu tenha escondido as bolas, enterrando-as na areia. Não fui eu. Uma pena.
Enquanto isso…
“Miga, tá boa?
Acabei de sair da yoga e descobri que hoje tem eclipse.
E, aparentemente, eclipse solar é um momento de sombra, de energia muito forte, em que a gente deve tomar alguns cuidados. Por exemplo:
Evitar pessoas.
Eu, que moro com dois filhos, um marido, três papagaios e dois cachorros. Como faz, me diz?
Também é bom evitar decisões importantes.
A professora até deu um exemplo:
‘Se você está pensando em terminar seu casamento, não termine hoje. Espere o eclipse passar.’
E eu achei uma orientação excelente.
Inclusive já avisei meu marido que pelo menos hoje ele pode ficar tranquilo. Amanhã eu já não sei. kakaka
Outra recomendação é meditar durante o eclipse.
Ele começa meio-dia e trinta e cinco, tem o ápice lá pelas duas e pouco e termina umas quatro da tarde.
Ou seja...
EXATAMENTE o período em que eu estou pegando fogo. Quando eu tô ali, tentando terminar as demandas do trabalho antes de sair correndo para buscar as crianças na escola.
E a professora:
‘Procure se recolher. Faça uma meditação. Evite decisões.’
Querida…
Às três e quarenta e cinco eu vou estar decidindo se respondo e-mail, se compro a calça do uniforme, se descongelo o frango e se ainda dá tempo de passar na farmácia antes da escola.
Tudo isso provavelmente falando com umas sete pessoas ao mesmo tempo.
Então eu já aceitei, sabe?
Não vou lutar contra a energia do eclipse, não mesmo.
Hoje, entre meio-dia e quatro, eu estarei no olho do furacão cósmico, tomando todas as decisões que não deveria e falando com todo mundo que deveria evitar.
Se amanhã você ficar sabendo que eu terminei o casamento e comprei alguma coisa absurda na internet, tipo bóia pra cachorro relaxar na piscina, já sabe: a culpa foi do eclipse.
Enfim… Desculpa o podcast. Beijo!”
Confissão:
Ando experimentando um novo jeito de contar histórias: transformar pequenas observações do dia a dia em vídeos de um ou dois minutos no TikTok. Se quiser acompanhar essa aventura, procure por Andrea Me Conta ou pela hastag #desculpaopodcast. Embora ainda seja bem amador, estou gostando da brincadeira.
P.S.:
Nada como um novo dia. Já passou a raiva. Se bobear, até entro pra jogar com ela de novo, pra ver se tiro a má impressão. O céu está normal novamente.
E nada como escrever também. Só consegui dormir ontem quando tirei essa raiva do peito e passei para o papel. Você já fez esse exercício? Se não, tente. Quando você estiver com algum sentimento muito forte, ponha pra fora em forma de escrita. Só escreva. Sem pensar que alguém vá ler. Nem você. Depois me conta como você se sentiu.
Antes de me despedir, deixo você com outro texto sobre eclipse que escrevi em um momento parecido com o dessa semana.
Nos vemos na próxima história!
Um beijo,
- Andrea




