#153 - Entre o direito e o desconforto
Uma crônica sobre quando a regra está do seu lado, mas o desconforto fala mais alto
O interfone tocou no sábado, às 11h.
— Bom dia! — ela estava de bom humor.
Era o vizinho de baixo. Havia recebido uma notificação de barulho do condomínio e sabia que ela já havia reclamado algumas vezes.
O barulho realmente era exagerado. Sempre uma música horrorosa, depois das 22h, explodindo nas caixas de som.
Ela já havia falado com a vizinha, um ano antes. Na ocasião, a vizinha entendeu, foi simpática. Desculpou-se. Disse que os filhos adolescentes estavam em casa, enquanto o casal saía para um compromisso social. Ligou para o filho e, logo, a música cessou.
Mas o problema não. Ela até pensara em presentear os adolescentes do andar de baixo com fones de ouvido dos bons, com cancelamento de ruído e tudo, mas achou que seria mal interpretada. Então ela aguentava, até às 22:30, para se ter uma margem de tolerância. Depois disso, se fosse dia de semana, pedia para a portaria interfonar porque não queria se indispor. Nos finais de semana aguentava até mais tarde.
Começou a ver no grupo de WhatsApp do condomínio reclamações semelhantes, sempre no horário da música do andar de baixo. Ainda se fosse música boa, uma das pessoas chegou a comentar, mas aquele funk, com todo aquele grave, estava deixando o condomínio todo muito incomodado.
Teve uma semana que ela perdeu a paciência. Sua filha aparecia em seu quarto todas as noites, chorando porque não conseguia dormir com o barulho bem abaixo do seu quarto. Foi assim a semana inteira. Ela dizia para a filha que até às 22h, ele podia fazer o que quisesse. A menina retrucava, dizendo que odiava o menino de baixo enquanto a mãe só pensava que ela seria adolescente um dia e a música a incomodar pode vir a ser a dela.
Naquela semana, ela deixou a reclamação por escrito no aplicativo do condomínio. E agora o vizinho de baixo estava ao interfone, soltando os cachorros.
— Seu filho está tocando bateria? — O homem perguntou.
Sim, estava. E, embora estivesse dentro do horário permitido, embora a bateria ficasse em cima de um tapete para abafar o som e mesmo embora fosse uma bateria eletrônica e o menino tocasse com fones de ouvido, o vizinho reclamou. Disse que ligava porque não passava recado, falava na cara. Que agora teria tolerância zero. E que reclamaria de qualquer arrastar de cadeira que ouvisse de seu apartamento.
A mulher se defendeu. Disse que estava dentro do horário permitido, explicou que o menino usava fones de ouvido e que sua prática não passava de meia hora, por isso, ela não pediria para ele parar. Mas o vizinho passou do ponto. Tratou-a como se ela estivesse errada. Aumentou a voz, como fazem os homens covardes. Foi grosseiro. Rude. Cheio daquelas frases impositivas que terminam em “tá legal?”.
— De agora em diante vou ser tolerância zero, tá legal?
— Vou reclamar de todos os barulhos de vocês, tá legal?
E ela dizendo:
— Pode reclamar, tenho certeza de que ninguém vai me interfonar, porque estarei dentro das regras.
E soltou o tiro de misericórdia:
— Inclusive, quando eu ouvir a gritaria de vocês à meia noite, meia noite e meia, também estarei no meu direito de ser intolerante.
Tinha isso também.
Aquela família estava enfrentando problemas com o adolescente. Ela ouvia tudo. Os gritos, o choro da mãe, a dificuldade. Seu coração doía com isso. Ela mesma havia sido uma adolescente que gritava com os pais e batia as portas. Desde que se tornara mãe tinha medo dessa fase da vida. Sempre acreditou que pagaria por tudo o que fez seus pais passarem. Por isso, a situação no andar de baixo era desconcertante para ela.
Assim como aquela frase desconcertou o vizinho. Primeiro ele se defendeu atacando mais um pouco. Depois, negou que alguém estivesse acordado à meia noite naquela casa. Bateu o telefone na cara dela depois de dizer com rispidez: “tenha um bom dia”.
Naquela noite não houve música depois das 22h, não houve gritaria, não houve choro. Mas a mulher, mesmo sabendo que estava certa e que havia sido mal tratada pelo vizinho, sentiu-se mal. Talvez por ter exposto que sabia dos problemas familiares da família do andar de baixo. Talvez porque ser mal tratada, lhe sugava as energias. Talvez porque, tantas vezes na vida ele havia sido obrigada a se desculpar mesmo quando sabia que tinha razão. Talvez ainda, porque, depois de um confronto, ela sempre se sentia culpada, como se ela tivesse provocado a situação.
Entrou no Mercado Livre e encomendou um piso elevado isolante para colocar debaixo da bateria eletrônica que é usada com fones de ouvido em cima do tapete acústico. Não quer incomodar, mesmo que estivesse certa.
Tremeu e sentiu vontade de chorar. Sentiu pânico em entrar no elevador e dar de cara com aquela família. Vergonha por saber da intimidade deles. Medo de ser confrontada novamente. E envergonhada pela notificação que eles haviam recebido. Mesmo certa e dentro de seus direitos, ela sentia culpa.
Não aprendi dizer adeus
A protagonista da crônica de hoje revela um padrão silencioso da sociedades que é: quem grita, domina. Não porque tem razão. Mas porque desloca a conversa do campo da lógica para o campo do desconforto.
Eu sei, tu sabes, ele sabe que viver em sociedade exige tolerância. Mas ceder sempre vai ensinando o outro até onde ele pode ir e isso é um efeito colateral foda. Esse outro vai sempre até o limite que você impôs. E ainda vai tentar passar dele, pode escrever. Aí, quando você se dá conta, percebe que está ocupando um espaço MENOR do que tinha direito de ocupar.
Aí eu te pergunto: em que momento a empatia vira submissão?
Essa semana ouvi um episódio sobre pessoas que controlam o ambiente sem encostar em você. Difícil não lembrar dessa história. Deixo o link AQUI caso você queira escutar.
Mas deixo você ir
Não sem antes te perguntar: você já saiu de uma discussão sabendo que estava certa, mas se sentindo errada?
Nos vemos na próxima!
Um beijo,
- Andrea


Surreal né? O tanto de vezes que, para não brigar ou discutir, nos calamos e vamos perdendo espaço. Acho que viver em sociedade requer, de fato, relevar uma ou outra situação. Mas é preciso conhecer os nossos direitos e ensinar aos nossos filhos o que é certo e o que é errado. Que o nosso espaço acaba onde o do outro começa. Haja paciência.
Precisava tanto dessa crónica.
Passei a pouco por uma situação muito desconfortável.
Obrigada.
Deu nome as minhas sensações.
🙏