#152 - A rouquidão da cantora
Uma história de superação sem superproteção
Brené Brown, pesquisadora que se debruçou sobre temas como vergonha, coragem e conexão humana, fala muito sobre vulnerabilidade. Em seu TED mais famoso, defende uma ideia que contraria o senso comum: vulnerabilidade não é fraqueza, é condição para relações reais.
Nele, ela mostra que tentar evitar exposição, erro ou rejeição pode até parecer proteção, mas isso, na prática, limita também experiências como pertencimento, alegria e confiança.
Trocando em miúdos, não existe conexão profunda sem risco emocional e quem tenta controlar tudo ou viver “protegido”, acaba vivendo pela metade.
Entendo o conceito. Acho interessante esse ponto de vista e o aceito bem. Tanto que já falei sobre este tema na edição 60 (que também é sobre beach tennis) e na edição 42 (que também fala sobre ressaca). Em ambas publicações, compartilho o tal do TED da Sra. Brown. É bem capaz que o compartilhe novamente aqui, vai que você ainda não viu.
Enfim, como dizia, entendo e até gosto do conceito de se colocar em situações de vulnerabilidade para se dar a oportunidade de viver situações que você não viveria se tentasse se proteger.
Mas a coisa muda de figura quando falamos sobre filhos.
A gente quer protegê-los, sabe?
Mas a vida é dinâmica, as coisas acontecem, os perrengues, as situações difíceis, as conversas complicadas estão aí para todo mundo, inclusive para eles. E é justamente esse tipo de coisa que os ajuda a desenvolver o jogo de cintura. A sentir aquela pequena explosão no peito que grita “vitória” silenciosamente. A aprender, crescer, descobrir suas próprias forças e fraquezas. Ou seja, ao não permitir que eles se coloquem em situações de vulnerabilidade estaríamos criando uns bundões.
Mesmo assim, mesmo sabendo disso tudo, a gente quer protegê-los.
Igual quando Mariana, minha filha de 8 anos, acordou sem voz, no dia de cantar com sua banda da School of Rock.
A menina acordou rouca de fazer inveja ao Pato Donald. Sua apresentação seria às 14h. Seu ensaio, às 9:45. Coloquei-a para fazer inalação, dei-lhe uma pastilha para a garganta e levei-a para o ensaio.
O professor da banda foi compreensível e pediu para que ela apenas marcasse a música para orientar a banda e, em meia hora, ela estava me ligando aos prantos, para fosse ajudá-la.
Fui com o spray de própolis em mãos.
Falei com o professor e ele disse “vai dar tudo certo".
Falei com a professora de canto e ela disse: “que cantora nunca acordou rouca?”
Levei-a de volta pra casa para mais inalação, gargarejo com água morna e silêncio. Muito silêncio.
Ela poderia pedir para desistir. Os avós e tios que iriam assistir a apresentação entenderiam, até porque assistiriam o irmão baterista e a viagem não seria perdida. Eu mesma tive vontade de dizer: não vai, fica aqui quentinha, deitadinha debaixo do cobertor quentinho, filhinha. Mas engoli e disse: você vai.
Tremi. Meu estômago doeu. Minhas mãos suaram. E lá fomos nós rumo ao palco.
Hora da banda e ela tensa. Subiu. Faria a segunda voz na primeira música, mas não fez. A segunda música era sua. Olhou para a outra vocalista e disse: me ajuda? E ela: Mari, não sei a letra.
Os primeiros de Radioactive de Imagine Dragons começaram ao mesmo tempo que as lágrimas encheram seus olhos. De lá de cima, ela me olha e estende a mão. Aproximo-me do palco e seguro sua mãozinha pequena, quente, nervosa.
🎵 I'm breaking in, shaping up
Then checking out on the prison bus
This is it, the apocalypse, ooh 🎵
Soltou a mão.
Ajustou o microfone.
🎵 I'm waking up
I feel it in my bones
Enough to make my system blow 🎵
As lágrimas escorreram por suas bochechas gordinhas. Ela limpou-as com as duas mãos cobrindo os olhos. A segunda vocalista deu conta das frases seguintes.
🎵 Welcome to the new age, to the new age
Welcome to the new age, to the new age 🎵
A mãozinha quente se estica novamente para buscar a minha, que está gelada e trêmula. Ouço sua voz novamente no microfone.
🎵 Oh, oh, oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh
I'm radioactive, radioactive. 🎵
Espera. Ela soltou novamente a minha mão. Tirou mais uma vez as lágrimas que atrapalhavam sua visão e continuou.
Ela continuou.
Nervosa, sim, mas se soltando aos poucos.
Rouca, sim, mas tirando a voz do fundo do peito. De dentro do coração.
A plateia segurava a respiração. O ar não circulava no recinto. Só senti uma leve brisa quando a música acabou. Era o suspiro de alívio do público, que explodia em palmas. Ela havia conseguido.
Olhei para o meu marido.
— Acabou? — ele me perguntou?
— Não, ainda tem mais uma.
— Não estou aguentando mais, vou infartar.
Mas não infartou. Olhei para Mariana antes da sua segunda música e disse:
— Você é uma estrela. Brilhe.
Ela terminou com I love rock 'n roll menos nervosa. Mais segura de que estava tudo bem. Agradeceu os aplausos, tirou foto com a banda, desceu do palco e se aproximou:
— Eu arrasei, né mamãe?
Não aprendi dizer adeus
Falando em performance, preciso comentar de Justin Bieber no Coachella, me desculpe se o assunto já está saturado.
O menino nasceu no YouTube. Teve a vida exposta da infância até a adolescência. Foi tratado como uma mercadoria do mercado fonográfico. Surtou. Teve problemas mentais graves. Afastou-se dos holofotes por alguns anos. Virou pai. E resolveu voltar.
Na lógica, quem é músico ama a música e se alimenta do seu público. Uma visão romântica, eu sei, mas vamos dizer que isso se aplica a todos, inclusive a Justin Bieber.
Imagina aqui comigo. Justin vai lá, vai lá, cuida da cabeça, investe em autoconhecimento, faz sua revolução solar, consulta o tarô e tudo o leva para o mesmo lugar: sua música. Mas ele está cansado dessa papagaiada toda de shows mega produzidos, com mil pessoas e cenários entrando e saindo de palco, trocas de figurino e o escambau. Ele só quer cantar.
Um menino e um microfone.
Um menino, um microfone e sua conta no YouTube.
Como era no princípio, agora e sempre.
E foi assim que ele fez no Coachella. Justin foi lá e cantou. Em determinado momento, abriu seu laptop, colocou vídeos seus do YouTube e fez um dueto com sua versão criança. Recebeu artistas convidados. Parecia honestamente feliz em estar lá.
E, enquanto muitos rotulam sua performance de preguiçosa, eu a vejo como uma volta às origens. Porém, uma volta com uma grande diferença: a intimidade com seu público, que o permite ser quem ele quiser.
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Cada pedido da escola é uma maratona pra mãe, né Gabi Miranda?
A Cyne News fez 2 anos. Lembro-me de quando a Cynthia Teixeira começou, ainda insegura em colocar suas palavras no mundo. Orgulhosa desse aniversário.
A filha quase perdida - mais um texto meu sobre essas coisas de maternidade, que deixam a gente meio de cabelo em pé, meio orgulhosa.
Esse “notes” aqui, meu Deus, como me emocionou.
E esse vídeo de Jon Bon Jovi então?
Mas deixo você ir
Não sem antes te deixar com uma pergunta (bem filosófica, eu sei):
Qual é o limite entre proteger e impedir? E quem decide isso?
Um beijo e até a próxima!
- Andrea


