#151 - Depois do Eclipse
Comportamento, astrologia e marketing astrológico
Um disclaimer importante que você precisa saber antes de ler esta edição: trabalho com a minha família.
Agora sim, o texto.
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Papai está sem filtros. Nunca os teve, é verdade, mas está pior. Isso para a família não faz lá muito estrago (pelo menos não mais do que já foi feito anteriormente), mas, na área profissional, pode dar muito errado.
Foi por conta de algumas infiltráveis frases num contexto de trabalho que resolvi, inocentemente, apresentar-lhe meu feedback. Pai, não pode falar tal coisa. Foi o suficiente para que um campo de batalha se formasse e eu começasse a receber tiros de canhão. Ele levou pro pessoal e eu encarei sua reação uma ofensa. Ficou aquela atmosfera tensa de grupo de condomínio no WhatsApp, sabe?
Para não cair na tentação de continuar a discussão, usei a tecnologia a meu favor e o silenciei nos meus contatos do celular por todo o final de semana. Não gosto de fazer isso. Fiquei chateada, sentindo aquela tristeza de apertar o peito por dois dias Ele também ficou, que eu sei (mamãe me falou).
A angústia durou até domingo de manhã, na aula de yoga.
Calma, antes de me julgar, achando que vou falar em como a yoga me eleva espiritualmente, se enganou. Nada de namastê, podicrê e sifudê. Continua aqui que não é nada disso, não. É quase.
Cheguei na yoga, estiquei meu tapetinho, endireitei a coluna meio torta e agucei os ouvidos, porque adoro as reflexões do começo de cada prática. Naquele dia, a professora começou falando do período que nos encontrávamos: uma entressafra de eclipses (entre o eclipse solar do dia 17 de fevereiro e o lunar de 2 de março).
Começou dizendo que eclipses são momentos de pouca luz. Fisicamente, pois um corpo celeste passa pela sombra do outro e, simbolicamente, pois são considerados momentos de falta de clareza mental.
Esses momentos “sem luz e sem clareza” não são necessariamente ruins, mas podem aumentar a superidentificação com emoções fortes. Afinal, é uma época em que vivenciamos uma energia confusa, em que sofremos por pouco e enfatizamos bobagens, que normalmente deixaríamos passar.
“Talvez agora você tenha passado por uma semana muito difícil, só que você não está com nenhum problema. Não precisa ir ao médico, nem ir no psiquiatra. Existe uma grande chance de que aquela tristeza, aquela chateação que estamos sentindo seja fruto do momento atual. Entender isso, compreender a energia do momento, pode nos ajudar a lidar com períodos desafiadores”, disse a professora, “e isso permite que se viva de forma mais harmoniosa”.
Continuou:
“A chance de eu ficar me aborrecendo com bobagens nesse período é um pouquinho maior. Sabe quando a gente fica esperando que o outro nos entenda? Então, essa semana é melhor não esperar nada. Essa semana é melhor privilegiar o silêncio, a introspecção".
Essa semana é melhor não esperar nada.
A frase ficou. Interiorizei o ensinamento e refleti com o acontecimento da semana: meu pai não entendeu meu ponto de vista, mas eu esperava que ele tivesse entendido e reagisse de outra forma. Eu não entendi a chateação dele, pois, pra mim, não estava dizendo nada de mais, mas ele esperava que eu o compreendesse.
Ambos tivemos nossas expectativas frustradas, mas o momento não era de clareza para ninguém.
Uma entressafra de eclipses não é favorável para conversas decisivas. Para reuniões que mudariam a vida. Para embates, grandes ou pequenos. Sei que a vida é constante e não podemos frear acontecimentos que estão fora de nosso alcance, mas, talvez, se eu soubesse das energias daquela semana, eu tivesse conversado com meu pai depois que o céu mudasse.
Ou não. Não sei. Sou ansiosa, sabe?
E também não sou tão ligada na astrologia dessa maneira. Talvez devesse ser, pois adoro o tema, acredito que o campo energético do universo, luas e planetas são fortes a ponto de influenciar nossos humores, assim como a lua influencia as marés. Mas não sou. Não olho o horóscopo diariamente. Não sei meu mapa de cabeça. Não deixo cravado na rocha que sou virginiana e é assim que eu tenho que agir. Tem alguns signos, inclusive, que não sei absolutamente nada (tipo sagitário). Mas existiu algo tão consolador naquela fala, que aquela tristeza que eu estava sentindo se dissipou. Fiquei em paz. Levitei de tão leve porque, naquela teoria que eu estava escolhendo aceitar naquele momento, fez sentido e me curou do mal-estar.
Porque é isso: no final do dia, somos o reflexo das nossas escolhas. Eu escolhi aceitar que o momento entre eclipses era de uma energia desfavorável para conversas difíceis, que o mau estar foi causado por essas energias e isso me deu a paz de espírito que eu precisava. O problema não era eu, não era meu pai, não eram nossos gênios difíceis (hehehe), era o momento.
Tem comprovação científica? Não tem. Mas me ajudou.
Coincidentemente, após o período de eclipses, na primeira vindo dos meus pais em casa, abordei novamente o assunto. Foi tranquilo, esclarecedor, adulto. Sem rusgas. Sem ressentimentos.
Pode ser que eu tenha pensado melhor e buscado uma nova abordagem. Pode ser que ele já tivesse digerido o tema. Mas pode ser que tenha sido um momento mais energeticamente favorável.
O que você acha?
E o marketing, Andrea Cristina?
Gente, vem comigo. Comunicação e signos têm tudo a ver.
Sabe que hoje, o que mais se fala em termos de comunicação das marcas é que, para que elas tenham alguma relevância em redes sociais, elas devem participar das conversas. Entrar nas trends. Replicar os memes. Até porque, no Brasil, meme não é só entretenimento, é conversa. É construção coletiva.
Signos então, são verdadeiros atalhos sociais. Vamos combinar que falar de signos gera conversas, especialmente entre as novas gerações. Dizer que sou de virgem explica muita coisa sobre mim ao meu interlocutor, por exemplo.
Pode perceber que, nas redes sociais, os posts que têm a astrologia como base do conteúdo, têm alto grau de engajamento e compartilhamento, ou seja, as métricas que os perfis mais buscam para ser tornarem relevantes.
“Coisas que só um virginiano faria” - posto nos meus stories
“Como cada signo reage ao boleto” - envio para minha irmã ariana
“Chefe de cada signo” - coloco no WhatsApp da família
“O que evitar no mercúrio retrógrado” - mando para as amigas
É assim ou não é?
Pois é. E quando falamos sobre gerar conversas nas redes sociais, quem é que chega na rodinha? Isso mesmo, as marcas. O problema é que, nessas conversas, elas não são protagonistas. São convidadas. Então, se a comunicação não é muito bem feita e a estratégia muito bem pensada, a marca vai ficar lá só repetindo meme de signo, trend atrasada, piada reciclada… Tentando muito ser uma coisa que não é: parte da galera.
Por isso, mais importante que tentar entrar nas conversas, a marca precisa ter uma voz própria. Uma identidade. Só assim elas têm o que dizer e não ficam ali só ocupando espaço.
Tem algumas marcas que fazem isso muito bem. Os melhores exemplos, pra mim, são:
Duolingo
O Duolingo criou um personagem, a coruja Duo, que se apresenta em posts com seu humor caótico, autodepreciativo e altamente relacionável com o público. Isso cria uma identidade forte que vem antes de qualquer meme.
Netflix
O perfil da Netflix no Brasil é provavelmente o caso mais consistente de uso de cultura de internet. Sim, eles usam memes, mas dentro do seu próprio tom de voz, que eles vêm criando há muitos anos, em todas as plataformas sociais (X, Instagram, TikTok…).
Aff The Hype
Essa é uma marca brasileira de papelaria que conseguiu captar a linguagem da internet muito bem. Ela não precisa usar signo, nem trend, nem meme pronto para construir identificação. Ela já tem uma voz tão específica (ácida, impaciente, meio desconfortável) que qualquer coisa que ela diga carrega personalidade.
Aliás, eu falo mais da Aff em uma edição sobre copywriting, que escrevi nos primórdios dessa newsletter, em janeiro de 2022!!!
Leia aqui:
O que a gente tira de conclusão então? Boas marcas até usam o repertório da internet, mas não dependem dele. Elas não desaparecem quando o meme passa, nem mudam de personalidade quando muda a trend do momento. Elas são reconhecíveis tanto no jeito de falar, quanto no tipo de humor. Às vezes até no silêncio.
Lembra de alguma outra marca que faz isso muito bem? Me conta!
Engravidei
Engravidei é meu romance de estreia. São crônicas da maternidade escritas em dois tempos: durante minha gravidez e dez anos depois, já com uma década de experiência na maternidade.
Essa semana recebi um depoimento lindo de uma leitora:
O Engravidei está disponível no site da Editora Caravana (para o livro físico), ou de forma digital na Amazon.
Ah, se você for assinante do Kindle Unlimited, o Engravidei tá lá à disposição. ;)
Não aprendi dizer adeus
Ando meio endoidecida com o trabalho, mas anotei quais foram alguns dos conteúdos que consumi por esses dias para indicar pra vocês. Vamos lá?
O que é Farmar aura? - Meu filho mais velho é um pré-adolescente e, vira e mexe eu fico na dúvida de algumas gírias que ele usa por aí. Estava difícil entender o que era farmar aura, mas achei esse vídeo tão bem explicado, que resolvi compartilhar, por ser de grande utilidade pública.
E o Banco Master, hein? - O The News lançou uma série de podcasts que promete explicar o maior escândalo dos últimos tempos. Ouvi o primeiro episódio e estou ansiosa pelos próximos. Parece série de TV, pena que é real.
Signos e marcas - Ao pesquisar a parte de marketing dessa edição, encontrei um esse vídeo do Meio & Mensagem sobre o tema, com alguns exemplos de campanhas que utilizaram este mote para se conectar com audiências mais jovens.
Mas deixo você ir
Sem indicação de newsletter porque, confesso, não li muita coisa nos últimos dias. Mas acho que a news já está bem grandinha, não está?
Espero que tenha gostado.
Um beijo e até a próxima!
- Andrea



