#137 - Eu tenho medo de adolescentes
Olhou-me de cima a baixo com desprezo. Já estava me menosprezando por ser uns 20 cm mais alto do que eu, mesmo sendo quase 30 anos mais novo, mas piorava a cada palavra que saía da minha boca.
Eu o elogiava por assumir uma responsabilidade tão grande com tão pouca idade, mas ele não me conhecia. Sou conhecida dos pais. Ambos estavam ali, sentados à frente do gigante de 15 anos, que apenas acenava, fuzilando-me com o olhar.
Olhei para os pais, que sorriam amarelo, como se pedissem desculpas pelo fuzilamento que o filho fazia comigo, apenas com um franzir de sobrancelhas.
Tenho medo de adolescentes. Não consigo cravar meus olhos nos seus enquanto lhes dirijo a palavra. Sinto-me ameaçada. Diminuída. Tonta. Tiazona. Uma verdadeira idiota. Minhas palavras se perdem numa névoa de ar denso que paira entre nós. Sem sentido. Sem importância.
Na frente de um adolescente, confronto a pior pessoa para mim: eu mesma, com 15 anos. Insegura. Sem saber se era bonita ou feia. Moldando minha personalidade pelo que diziam de mim.
Eu, que, perto dos meus amigos, demorei para amadurecer, fui taxada de criançona, babaca, infantil. Sempre tagarela, quando me dei conta de que já não era mais criança, às vezes sentia urgência em engolir minhas palavras. Ou ficava remoendo-as dias a fio. Nunca fui tímida, mas não sei se isso era bom ou ruim. Muito do que eu falava virava piada entre a turma que se achava bacana. Se eu me interessava por algum garoto, mesmo que ele se interessasse por mim, desistia de chegar junto porque eu era assim, meio criançona.
Nunca contei nada para a minha mãe, mas comecei a namorar cedo. Um garoto bonito e burro. Satisfazia-me porque ninguém, naquela época, ligava muito para o intelecto. Ele era bonito e isso bastava para mostrar ao mundo a minha superioridade. A babaca agora namorava um cara bonito. Que andava de moto pela cidade (sim, com 15 anos). Que, diziam as más línguas, fumava um baseado aqui e acolá. O cara bacana. O cara da moda. Quem é criança agora?
Só me fiz mal. Não tinha maturidade para namorar, e ele também não teve para lidar com a fama de cara bonito. Fui feita de trouxa, mas tinha certeza de que não era mais vista como antes.
Mesmo assim, até hoje tenho receio das minhas palavras. Tantas vezes me pergunto se estou falando alguma besteira enquanto tagarelo sem parar. Ainda me dou melhor com mulheres do que com homens. Não me aproximo tanto. Não dou tanta liberdade. Vai que descobrem quem eu sou de verdade?
Os adolescentes sabem quem eu sou, tenho certeza. Sabem da minha insegurança e da minha imaturidade. Vejo em seus olhos. Em seu desprezo. Em seus risinhos às minhas costas. Tenho medo de ter sido descoberta. E tenho medo de quando meus filhos chegarem nessa fase da vida. Minha impressão é que nunca mais vão me olhar com admiração. Nunca mais vão me achar legal ou divertida. E meus conselhos se tornarão algo maçante, de uma velha que nasceu no século passado.
Tenho medo da virada de olhos. Das portas na cara. Dos olhares de ódio. Ou tédio.
Mas, sendo mãe de um pré-adolescente, tento me preparar para o que vem pela frente. Olho no espelho e me pego ensaiando o tom e as expressões da mãe sábia e segura que quero ser. Mas o reflexo só me mostra uma menina de 15 anos, tentando, em vão, parecer madura o suficiente para não ser ridicularizada.
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Até a próxima semana!
Um beijo,
Andrea
o adolescente tem que acabar
acho que a insegurança, nesse caso, é uma via de mão dupla. acredito que os adolescentes tentam manter um ar de superioridade, uma aparência de que estão no controle ou sabem das coisas, mas - no fundo - também estão cheios de dúvidas. é um período da vida bastante turbulento: um limbo entre a criança, que não tinha tantas responsabilidades, e o adulto, cheio delas.